domingo, 20 de setembro de 2009

nada mais é como antigamente

Nem o tomate é o mesmo, está cheio de agrotóxicos. Nem o chocolate garoto, a fanta uva e o jeans surrado têm mais aquele gosto oitentista da infância. Não se fazem mais pães de queijo, empada e pamonha com aquele tantão de queijo dentro. E nem o café ralo e doce a vovó faz mais.

Não se fazem mais como antigamente: crianças, brincadeira de criança, brigas de criança. Hoje elas perguntam qual a profissão do pai do amigo e preferem as transações do banco imobiliário virtual.

Não se fazem mais os mesmos cavalheiros, os mesmos cavaleiros, os mesmos garçons e o mesmo "lord" inglês. Hoje parece que há uma preocupação maior em ser ético, quando na verdade não há ali um pingo de autenticidade. Não é como antes sequer a mesma malandragem, que jogava seu chapéu para o vento, em um clima romântico de sedução e boemia. Hoje os malandros, com suas camisetas Lacoste, usam água de cheiro industrializada e tentam parecer doces rapazes.

Não se fazem mais os mesmos causos, as mesmas prosas e o mesmo balanço. As conversas são cheias de informação, mas sempre regadas por visões superficiais sobre qualquer ato ou fato. As experiências foram sequestradas e "dessequestradas", mas não são as mesmas do mundo que se permitia ser visto muito mais com os olhos e com o coração do que com as lentes da técnica.

Não se faz mais a transcendência como antigamente, porque ninguém está disposto a confiar no que não conhece. Nem eu e nem você somos os mesmos, porque buscando ser sempre melhor, podemos reduzir essa esperança seguindo sempre o pior.

Não se faz mais qualquer coisa de antes. Porque o antes já passou e, uma vez que passou, não traz mais surpresa alguma. É verdade que nada será como antes porque esse antes está na memória, foi apropriado pelas lembranças e tem o gosto que queremos dar, da forma como idealizamos o mundo. E o mundo de hoje é real. E de tão real que é, fica sem graça.

tarde com Vinícius

Aquilo que não se diz, que se esconde de si, que não é bom lembrar sequer nos momentos mais solitários, Vinícius de Moraes fala nesses dois poemas aqui relacionados. Um de muita decepção, outro de muito sonho. Um de plena realidade, outro de puro idealismo. Os dois lados de todos nós. E tudo pode valer nessa carta. E tudo pode estar nesse suspiro. Inspiremo-nos!


A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
É, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei, nem lembro mais


Ai, quem me dera

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai, quem me dera ver morrrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai, quem me dera uma manhã feliz
Ai, quem me dera uma estação de amor

Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem casais

Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim

domingo, 13 de setembro de 2009

vai, vento!

Vai, vento, assopra! Segue seu rumo, assovia, percorre os sentidos, os caminhos escondidos e as trilhas atalhadas. Vai, vento, vai! Seus desejos vão voando, com seu grito em revoada, muda a vida de quem segue, inspira os olhos de quem sente.

Vai, vento, gira! Seu barulho em encruzilhada dá sinais silenciosos de que a vida que persegue está lá bem adiante.

Vai, voa, corre! Longe, livre, belo e invisível. Vai e fala o que me espera, dando notícias bem de longe. Chega do Oeste com a incerteza de que amanhã estará no Norte. Sem sentido e sem razão, segue em frente a acompanhar a passarada que passou do topo ao pé do morro alto.


Vai, perpassa, vento, os riscos! Os riscos que a alvorada oferece, em respingos, úmida, na folhagem e no jasmim. Vai levar o cheiro e as cores, a luz e os ruídos de quem nasce, de quem chega, de quem parte e de quem volta. Vai e voa para onde quiser, para onde o conduzirem, para onde estivermos todos. Para sempre, para nunca mais.

Vai e desperta, vento, as tramas tais, alegorias infinitas que pelos seus braços são levadas! Reúne as histórias das pessoas, vento, com o gosto doce de seu sopro. Amores, dores, decepções e descobertas: junta tudo, depois espalha e lança mão do que o espera.

Vai, vento, vai, ser feliz longe de mim!

sábado, 5 de setembro de 2009

cadência


Vai e vem. Vem e vai. Movimento onírico das moléculas irrequietas. Onda singela, portadora de sons e imagens. Ora sons, ora imagens. Magnetismo natural. Energias incandescentes. Modulação mediana. Sentido em relevo. Revoar de quadris. Suspirar de ares. Sensações mergulhadas. O envolver do mar. Vai e vem. Vem e vai.

ímpeto

Mexia os dedos rapidamente, tentava estalar as juntas, parava. Mordia os lábios até arrancar uma fina pele na boca sangrenta. Parava. Respirava fundo, tomava água, mexia os dedos dos pés freneticamente. Parava. Enrolava os cabelos, piscava, espirrava. Na sua cabeça uma sequência de imagens fazia o efeito contrário ao da meditação, tantas vezes indicado para casos como aquele. O desespero passava pelos olhos, pela mente, pelas lembranças. Enquanto isso, seu corpo se manifestava inquieto e absorto em uma energia vil.

Foi quando decidiu. E partiu fumegante três andares de escada. Atravessou a rua fora da faixa de pedestres, com o sinal verde, os carros passando, as pessoas resmungando, sem sequer notar. Passou pela banca de frutas, roubou uma goiaba e mastigou-a num ímpeto, enquanto alcançava a próxima quadra.

Olhou para o relógio, não via que horas marcava. Revirou a bolsa, não encontrou o bilhete. Desesperou-se ainda mais. Meticulosa, não acreditava que resolveu seguir. Havia pensado muito, mas parecia-lhe mais um daqueles impulsos que tanto acusava-se de dar, que tanto evitava e tanto perdia tempo racionalizando sobre "tê-lo ou não".

Sem fôlego, parou sob a mangueira, enquanto o próximo semáforo indicava a cor amarela. Estalou novamente os dedos. Pensou em voltar. Comprou água mineral do ambulante que percorria as pessoas e os carros. Continuou, a passadas cada vez mais largas.

Atravessou a praça. Outra faixa de pedestres. Outro quarteirão. Outro bairro, numa caminhada sem fim.

As cores em sua vista eram cada vez mais turvas e os sons percorriam seu cérebro com a mesma velocidade de seu sangue. Buzinas, conversas, sons mecânicos, construção, motores, fuligem, pastilhas, grafite, fossa, cheiros fortes, comidas e transeuntes compunham seu delírio bastante concreto para aquela tarde nublada e úmida de segunda-feira.

Enfim chegou ao seu destino: uma floricultura de esquina. Um sobrado rococó, com porta de madeira e tinta seca em tom pastel descascada no muro. Pediu melissas e flores do campo envolvidas em fita branca. Espirrou. Espirrou. Com as narinas irritadas, desmaiou.

domingo, 30 de agosto de 2009

vale para todos os tempos

"Não confio em reformulação democrática se pequenos gestos como o de permitir o encontro de presos com seus familiares e amigos não sejam lealmente observados. Antes de anistia, que a consciência e a conveniência política estão pedindo, é preciso restabelecer o direito ao abraço, ao beijo e à conversa afetuosa dos que estão cá fora com os que estão lá dentro".

Carlos Drummond de Andrade em A cor diferente do sábado, crônica publicada no Jornal do Brasil de 22 de março de 1979.