sábado, 14 de novembro de 2009

resistir - ou o feminismo de todos os dias


Para as meninas de fogo


De repente, preferimos fechar a roda e conversar entre nós. Sobre eles? Não. Sobre nós. Não cogitávamos ali nossas vidas com eles ou por eles. Ignoramos isso. Tínhamos ganas de descortinar nossas curiosidades sobre nós mesmas. E assim fizemos.

Falar sobre nós foi muito além da vida privada ou dos relacionamentos privados - como frequentemente as mulheres costumam dividir suas vidas com as outras: namorados, amigos, filhos, maridos, amantes, netos. Queríamos compartilhar sentimentos, sonhos, livros lidos, cheiros percebidos, experiências adquiridas e, acima de tudo, propostas para nosso futuro.

Vínhamos de um encontro sobre Educação Popular que nos reunia na condição de militantes ainda em iniciação e guardávamos, então, uma ânsia de mudança que deveria começar ali, naquele momento. Encontramos nossa opção: sem separar, segregar ou distanciar, nos fechamos para que nos aproveitássemos melhor. Para que nos descobríssemos outra vez. Para que digeríssemos melhor todo o resto da vida e compreendêssemos nosso papel no mundo, enquanto mulheres, amigas, irmãs, cúmplices, enquanto meninas com um caminho, uma rota, um mapa e muitas ideias em comum.

Foi aí que eles ficaram mudos, perdidos, com a atenção desatenta em frente à TV, como quem quer ouvir, procurando nossas broncas e nossos sorrisos. Éramos uma turma grande, mas, quando resolvemos conversar só entre nós mesmas, calamos os homens. Sim, eles precisavam de nós. E quem disse que não precisam? Mas havia um encantamento muito maior entre nós do que entre eles. Estávamos competindo? Não, eles são ótimos: doces, inteligentes e sedutores, cada um ao seu modo. Ótimas companhias. Mas, estávamos muito mais preocupadas com os nossos próprios encantos, nossos ascendentes, olhares e hormônios. Sempre que tentávamos incluí-los em qualquer assunto, o ato de retomar as falas anteriores era tão cansativo que - pronto! - sem notar estávamos as cinco fechadas em nossos discursos. Adiantava? Não. Era um ato de sobrevivência aproveitar a nós mesmas com a maior intensidade possível.

Nos apaixonamos umas pelas outras? Claro que sim. Estávamos levando o feminismo ao pé da letra? Talvez, para experimentar. Ultrapassamos a conta com a militância, a ponto de levá-la para a mesa do bar? Quem nos dera! As hipóteses são muitas. Inegável foi nosso prazer, nossa contemplação e a nutrição de nossas almas ao ouvir uma e outra companheira pronunciar os mais variados temas.

Daí à reflexão daquele ato, uma consequência. Enquanto uma das cinco meninas discursava (ou "palestrava", como brincamos) sobre o "masculino" e o "feminino" no mundo, sobre mitos, fábulas e falsas mortes do simbólico, lembrei da Simone de Beauvoir. Foi como reler O Segundo Sexo e compreender o que li há cerca de um ano pela fala de outra mulher - melhor ainda: uma amiga me ajudava a reinterpretar Simone! Toda e qualquer tentativa que temos de nos enxergar enquanto seres independentes, que não são a costela dos homens ou que não são a outra metade dos homens, nos é roubada todos os dias. Nos é roubada quando nos exigimos os dois quilos a menos, pintamos as unhas, deixamos de nos encontrar, desistimos da política, quando não sabemos trocar o pneu de um carro, quando disputamos entre nós mesmas a atenção sexualizada deles, quando não nos consideramos seguras para voltar para casa sozinhas no meio da madrugada, quando encampamos o pensamento hegemônico do desamor.

Uma mulher branca e burguesa prefere ficar ao lado de um homem branco e burguês do que de uma mulher negra e proletária - escreveu Simone. Nossa independência do olhar do outro, que nos domina, é perdida cada vez que assim escolhemos estar ao lado de um homem que consideramos ser mais iguais a nós do que as próprias mulheres - comentou, ao seu modo, a amiga que tomou a palavra. E quantas vezes não fazemos isso? - pensamos. Deste modo, chegamos ao acordo de que o que nos restava para aquele momento (e para tantos outros) era a tentativa de nos recuperarmos.

A essa altura do diálogo e da troca, eis que caímos em leve besteira de definir um isso ou aquilo para nós e para eles. Até perceber que, mais uma vez, poderíamos incorrer no erro da comparação complementar.

...

Chega! Vamos conversar com eles novamente?

Nos (re) misturamos. Contudo, sem sentir que fomos vencidas e sem querer vencê-los. Aliás, continuamos a amá-los. Porém, com a certeza de que é de nós mesmas que precisamos nos momentos inspirados, dificultosos ou de renovação. Como ontem.

Para resistir, transformar e evoluir, nada melhor do que as situações mais corriqueiras da vida, entre mulheres. Sem competição, mas com a clareza de que as diferenças não devem ser esquecidas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

imbricações

E, de repente, tudo começa a fazer sentido. Os fragmentos de realidade e de virtualidade se resumem a uma só vontade do ser humano: conspirar, estar junto, respirar conjuntamente. É o velho desejo da mordida na maçã.

Hoje, ao fim da tarde, a Agnes me mostrou como funciona o Google Wave, mais um aparato para que as pessoas troquem linguagem, valores, informações e símbolos na rede. Entendi quase nada, mas mesmo assim pedi que me mandasse um convite de criação da minha conta. Logo em seguida, pensei: por que quero entrar para mais uma rede? E me veio uma preguiça leve, daquelas que vai crescendo conforme a gente se afasta do "novo".

Pelo que vi, as conversas entre as pessoas no Google Wave são mais dinâmicas do que no Orkut ou no Twitter e mais rápidas que o bate-papo em salas coletivas ou nas janelinhas do Messenger. Além disso, você ainda pode mandar e-mail em forma de vídeo, áudio, texto e o que mais considerar conveniente. Pode trocar canais de interação sem precisar abrir e fechar outras janelas e acompanha todas as conversas de e com seus amigos desde o início, para que a tão sonhada "interatividade" de Bertolt Brecht seja garantida. Aliás, me parece que o "wave" da onda é justamente pela facilidade de fluir no espaço imaterial das informações.

Aí foi que apareceram umas tantas dúvidas: Será que é mais um software nas nossas vidas? Mais uma rede social? Mais uma possibilidade de interação? Por que pedi um convite para entrar no Google Wave, se tanta gente me convida para o Facebook e eu não vou?

Cheguei em casa e fui bater papo com o Leo, pelo Messenger. Coisa rara, já que há muito todos nós (não só eu, não só ele, você também) perdemos a paciência com o barulhinho "tu-ru-rum" daquela janela piscante. Houve uma grande dificuldade de travar um diálogo inteiro que fosse, um raciocínio claro entre o que líamos e escrevíamos. Foi então que percebi que a chance de eu me irritar era muito maior com a tecnologia do que sem ela. Se pessoalmente a conversa flui claramente, mesmo que tenhamos sempre a consciência como filtro de nossos pensamentos, e quase nunca me indisponho, à distância uma parafernalha técnica impede a concentração, a atenção, o carinho e a dedicação. Antes de tudo isso: impede a compreensão. Aí os filtros são outros, muito maiores, porque são físicos. Uma relação que em outras situações seria dialógica, ali (e o problema não era a pessoa, estou segura disso) não passava de uma sucessão de monólogos desconexos.

Foi então que, automaticamente, lembrei-me da ideia trocada com a Agnes no final da tarde. E veio um estalo! Radicalidade de desdém à parte, não é por perder a paciência no Messenger que o ser humano vai desistir de desafiar a técnica. Eu também não a descarto. O que pode acontecer é a busca por um software que reproduza melhor nossa interação face-a-face.

Era o que nos questionávamos Agnes e eu na conversa anterior: por que temos tantos programas, tantas relações virtuais e tantas redes, se há uma vida imensa lá fora? E por que temos sempre a necessidade de trocar informações em vários softwares diferentes?

Sem querer responder, cogitamos o que horas depois fez todo o sentido: mesmo com preguiça de aprender, queria usar o Google Wave com a esperança de que essa tecnologia, essa intervenção humana sobre o ambiente, me aproximasse mais das pessoas. É uma espécie de reinvenção das relações, para que retornemos a elas.

Mundo de ficção científica? Sim, "as transformações estão passando na nossa frente", disse minha sábia colega de trabalho. Stanley Kubrick - inspirado em outras referências, claro - foi muito feliz ao relacionar o fogo com a nave espacial em 2001: uma odisseia no espaço. Pois desde o manuseio das primeiras pedras estamos criando e recriando condições de intervir no mundo para aproveitar esse mundo.

Ainda que muitas das relações humanas sejam modificadas e até possibilitadas pelas tecnologias (das impactantes às particulares), o que buscamos sempre é a proximidade com o outro. É viver entre a intensidade e o distanciamento. Entre pensar no que falar e falar sem pensar. Entre agir sem previsão e calcular qualquer impulso. Um esforço cíclico e contraditório de dominação das próprias condições temporais.

É assim que Mario Benedetti, em Mass Media, torna-se apropriado:



De los medios de comunicación
en este mundo tan codificado
con internet y otras navegaciones
yo sigo prefiriendo
el viejo beso artesanal
que desde siempre comunica tanto



Não que tenha decidido não aprender a lidar com o Google Wave. Longe disso. Mas, devo reconhecer que nossa intenção maior enquanto gente que se comunica, independente do software, é não perder uma piscadela da fotografia que brilha na tela. Ou seja, não perder um momento sequer do outro.

Que bom que existem os abraços!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

sem paciência

A "paciência é a ciência da paz", disse o mestre de cerimônias. "Pois é..." - pensei, cética - "...e lá paz tem ciência?". Deixei passar, preferi enxergar as veias dilatadas e as gotas de sangue circulares. Preferi enxergar distorcido, como aqui dentro, do que me preocupar com o verbo que vinha de fora.

E hoje fico aqui pensando, de que vale tanta denominação. O que quer dizer a ciência da paz? Um método, uma teoria, um fundamento? Ou uma racionalidade discursiva? Tem que explicar? Se tiver, não quero. Não é essa paz que eu quero.

Portanto, quanto mais você se explica, se explica por pouco, se explica por muito, quanto mais desculpas tem que dar, quanto mais conversas semear, mais sua racionalidade vira retórica e, portanto, menos eu vou acreditar.

Perde o contato com o imediato, perde energia, perde força, perde segredo. A paz da paciência é "corazonal", diria Restrepo, e não científica.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

de novo e sempre

Poesia, de novo?

De novo e sempre. Há muito o que escrever em prosa, quando se vive em prosa. Há sensações, descobertas e suspeitas. Há vida em narrativa. Vida que já é narrada todos os dias, que está na feira, na rua, no ônibus e na galáxia inteira. Há experiências, lacunas, percepções e outras novas constatações. Vida que passa por terras de minério, terras de ferro e de sol. Há pessoas, animais, coisas, sinais, vento, água e sal. Há esperança e desencontros. Tempo e espaço.

Na prosa há tudo isso. Daí a necessidade de contar. Na poesia, porém, a vida ultrapassa a narrativa e vira sentimento seguro que não sabemos de onde vem. Pieguice desmedida? De novo e sempre.

Enquanto a vontade de narrar não vem, as semanas vão começando assim, com poesia dos outros.

Por Abel Silva, mais uma vez:


O amor é outra liberdade
Não é o susto da paixão
Não é um raio
É um espelho
Não é o medo da solidão

Uma paixão naquela esquina
Guarda um punhal em sua mão
O amor semeia, colhe, espalha
O amor divide sua ração

Uma paixão quando envelhece
Senta no cais com os olhos fundos
Quer viajar por outros mundos
Quer ver mais perto
Romper abrigos
Redescobrir perfil incerto
Surpreender velhos abrigos
E no terror da liberdade cuspir o anzol
O amor é outra liberdade

domingo, 1 de novembro de 2009

referência reflexivo-inspiradora II







O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Autopsicografia - Fernando Pessoa

referência reflexivo-inspiradora I







Meu poema é nas nuvens
Cada qual descobre
O que deseja ver

Significado - Helena Kolody




segunda-feira, 26 de outubro de 2009

o caminho daqui, pelas terras de lá




A primeira coisa que fiz hoje quando acordei foi averiguar o resultado das eleições presidenciais no Uruguai, realizadas ontem. Cerca de 2,5 milhões de pessoas escolheram José Mujica, também chamado de Pepe, da Frente Ampla, e Luis Lacalle, do Partido Nacional, para disputarem o segundo turno no dia 29 de novembro. Também foi recomposto o parlamento, com uma espécie de polarização acirrada das cadeiras da Câmara Baixa e do Senado entre esses dois partidos (e suas bases).

Classificado como ex-guerrilheiro, Mujica adotou o slogan: "con mochila o sin mochila, votá en Pepe". A mochila, para o povo uruguaio, é o símbolo do passado armado. O "comunismo" ainda deve assombrar. Ex-presidente dos tempos da abertura ao modelo neoliberal, Lacalle é o famoso "rouba mas faz" de lá. Faz planos de recuperar a economia do país estatizando a pesca, mas não faz muita relação do sistema econômico à crise mundial. Tem um apoio velado de Pedro Bordaberry, filho de ex-militar golpista que, graças aos resquícios da memória, não foi totalmente esquecido. Entre a centro-esquerda e a centro-direita, o país tenta conduzir seu futuro sem grandes expectativas.

E por que havia de me interessar pelas eleições presidenciais do Uruguai? A história é longa, mas me dá gosto em narrar.

Maio de 2001 - A primeira vez que saí do país o fiz com destino a Montevidéu. Uma viagem de faculdade, com um grupo disposto a passar frio e fome. Estudante das quebradas, arrisquei passar uma semana fora de casa com pouco mais de R$ 200,00 (quase uma fortuna!). Três dias no microônibus da UFG para ir, três para voltar. Pisquila dormindo na Serra Gaúcha e minha mãe rezando de Goiânia, para que Santo Expedito protegesse a turma. A poltrona do microônibus era estreita e o resultado foi uma longa dor nas costas. Já em Chuí, passamos uma tarde tentando resolver dois problemas: a entrada no país vizinho do Cleyton e da Renata, que esqueceram seus documentos em casa, e o aluguel do carro que nos levaria até a capital uruguaia. Com previsão de gastar no máximo três horas entre Chuí e Montevidéu, levamos quase 12h e o resultado foi uma noite pesada de sono no Hotel Colônia. Nunca me esqueci do nome desse hotel, que tinha piso de ladrilho verde escuro e branco e elevador com porta sanfonada de ferro.

A primeira vez em Montevidéu me pareceu deslumbrante. Aprendi logo a andar na avenida 18 de Julho e aprendi também que essa data era cívica para seus moradores. Conheci a Universidade Católica e alguma coisa da Universidade da República. Admirei a Cidade Velha, com sua arquitetura gótica, seus prédios com ar abandonado e suas feiras livres cheias de artesanato e artistas de rua. Um dia, procurando o Banco do Brasil, olhei para o alto de um prédio azul marinho e pensei: como será viver por aqui? Curiosidade que foi acirrada com o tempo e que me fez repórter. Todas as vezes que rodei pelo interior do Brasil ou pelos bairros de Goiânia, repeti a mesma pergunta.

Bastante perdida, lembro da caminhada na tarde fria pelo centro de Montevidéu, dos velhinhos que sentavam-se nas portas das casas no final da tarde e da assustadora Igreja Universal do Reino de Deus. "Até por aqui?". Lembro também que, na semana em que o Brasil oficializou o racionamento de energia chamado Apagão, aprendi a tomar água mineral com gás, pois a água mineral sem gás uruguaia era bastante salgada. Não cheguei a ir ao Porto, mas fui a uma boate que tocava P.O.Box "en español". Conheci meninas bastante imponentes - que nunca me esqueço - e rapazes de olhares bastante penetrantes - que também nunca me esqueço. Aqueles cabelos desgrenhados dos jovens e aqueles colares de pérolas das senhoras me atraíam muito: exemplo de charme pseudo-europeu que por muitos anos foi fixo na minha mente.

Apanhei para conversar. Não sabia nada de espanhol e, por isso, entendia nada além de "Sí, como nó?". E, ao dirigir a palavra a qualquer um, não sabia se arriscava o portunhol ou falava meu brazuca devagar. E morri de vergonha. Tanto, que a primeira medida tomada ao voltar para Goiânia foi efetivar a matrícula no Senac, nas classes de espanhol do professor... como era mesmo o nome dele? Aquele? Era um chileno de Valparaíso. Ah, não me lembro!

Depois da decisão de estudar espanhol, quem mais me influenciou foi a Andréa, que conheci um ano depois e se tornou minha amiga e professora particular. Argentina de Buenos Aires, me fez estudar muito mais do que o idioma: de Borges a Tomás Eloy Martínez, de Mario Benedetti a Velázquez, de Gabriel García Marquez a Saint-Exuperry ("en español"), de Valentina (sua sobrinha de seis anos que morava em La Plata e vinha a Goiânia vez ou outra) às quatro amigas novaiorquinas do Sex And The City (assistidas com dublagem e legenda em castelhano), do livrinho adolescente que falava de Santiago del Estero à densidade de Júlio Cortázar. Cinco anos intensivos de espanhol com a Andréa me renderam muito mais do que o sonho de um dia voltar ao Uruguai com a língua tinindo: me renderam o certificado pela embaixada da espanha (chamado de DELE) de que estaria apta a "hablar" e uma aventura real pelo Norte e pelo Centro-Sul da Argentina, pelo Aconcágua, pelo litoral do Chile, por parte dos Andes e pelos altiplanos da Bolívia, nos anos de 2007 e 2008.

Desde a primeira vez no Uruguai, descobri semelhanças entre os "gáuchos", os portenhos (que não são só argentinos) e os brasileiros (de todas as partes), principalmente no que é referente à história sócio-econômica e política dos dois países, que por muito tempo povoaram minhas comparações: febre aftosa em boa parte do rebanho para exportação, celeiro do mundo, neoliberalismo dolarizante, falsa-riqueza e falso-progresso nos anos 60 e 70, miséria dos 80 em diante, narcotráfico, prostituição infantil, gente saindo do país para trabalhar, campos de golfe e quadras de tênis nas áreas nobres das cidades, gente morando na rua porque não teve outra opção, educação popular, politização vinda do campo, Paulo Freire, Mario Kaplun.

Logo depois dessa viagem veio a notícia do Corralito na Argentina e a crise que arrancou também as esperanças uruguaias. A quebradeira de um vizinho respingou no outro, mas a esperança de se reconstituírem levou a consolidação de vários movimentos populares e também dois presidentes de esquerda ao poder: Nestor Kirshner e Tabaré Vázquez. Por aqui, as duas eleições de Lula seguiram o rumor esquerdista do continente, mas resultaram muito mais de um "processo" do que de uma reação.

Outubro de 2009 - Quanta coisa muda em 8 anos! O Hotel Colônia fica na Rua Colônia, mas estava tão escondido por detrás de uma porta de vidro que demorei a notá-lo. A avenida 18 de julho, que nos leva do mar até a saída do centro da cidade, é uma espécie de Anhanguera duas vezes maior e com duas vezes menos bancas de camelô (ou será que é o contrário?). Os prédios góticos da Cidade Velha foram revitalizados e algumas ruínas até refeitas, incorporando também os vidros e a modernidade do novo Palácio do Governo. Raquel, que trabalha em um projeto de saúde da família ligado à Universidade, lembra de como, alguns anos atrás, essa Cidade Velha era sinônimo de isolamento e perigo. Hoje, há restaurantes, livrarias, albuergues da juventude e gente caminhando apressada pelas ruas até tarde da noite.

Meu olhar também mudou. Os cabelos desgrenhados das moças eram os mesmos, mas dessa vez elas pareciam ter mais cor. Algo mais de Almodóvar, com bolsas azuis, botas vermelhas e tintas roxas nos olhos. A casa do bispo Edir Macedo não me pareceu tão funesta. E reconheci nas batucadas do Candombe o sangue negro que esse povo quer tanto recuperar. "Não somos só descendentes de europeus", me disse uma mulher na praça do Cine Plaza. A única coisa que não mudou foi minha admiração pelo olhar penetrante dos rapazes. Um deles, o Gonzalo, com um verde profundo, deveria olhar para todo mundo que chega a essa altura do texto. Desperta paixão! Batata que desperta!

A Montevidéu de 2001 me parecia mais charmosa. A de 2009, mais suja, nem tão bonita assim, só que muito mais real. O encantamento mudou e a forma de perceber as experiências também. Dessa vez, fui com duas amigas (e colegas de trabalho e companheiras de projetos) participar de um encontro iberoamericano de extensão universitária. Em uma semana de contato com pesquisadores e movimentos sociais de toda a América Latina, o encantamento ficou a cargo nem tanto das formas e das construções, mas mais pelas sincronicidades, pelos discursos, pelo que se estuda, pelas pessoas, pelo entusiasmo de saber que há chances de se fazer pesquisa "desde las prácticas sociales", pelo Juan Bordenave e pelo William Torres.

A fluência no espanhol ainda não está boa. Muitas vezes tive de pedir pra falarem mais devagar e o Martín lá do albergue cansou de rir da minha insegurança balbuciada. Mas, consegui fazer amizades passageiras em Villa García com as crianças do X.O. e escutar bastante gíria. Aprendi a chamar a Ana de "chamuchera" e "tanguera", depois de tanto ouvir o José e o Carlos. E me arrisquei a entrevistar gente da orla da praia até a praça 33 para saber quem eram os candidatos preferidos daquelas eleições.

Assim que cheguei, o taxista avisou: "Não sabemos em quem votar, são todos iguais". Na verdade, não são todos iguais, mas o sentimento de boa parte da população é de que eram todos iguais. Desmerecido, descrente e desorganizado, o cidadão médio uruguaio, assim como o de qualquer dos países "em desenvolvimento", não fazem questão de escolher seus representantes porque simplesmente não se identificam com o modelo de democracia que é vigente. O sonho de uma nova cidadania e um novo modo de vida vinha da Universidade e do bairro do quilômetro 16, mas faltava no resto da população, que não sabe se prefere renda ou educação, segurança física ou dignidade, saúde ou representação.

O taxista disse mais: "há muita gente saindo do país". Isso também temos por aqui, como parte das ilusões construídas, das "fábulas", como diria Milton Santos, que a globalização nos impôs. Mas, em sua conferência, o espanhol Tomás Villasante, desmistificou: "Agradecemos que o Rio levará as Olimpíadas de 2016, pois já não temos mais dinheiro". Quebradeira total. Crise mundial. E isso se respinga, sim, no ânimo das pessoas. Os movimentos, eufóricos, queriam sempre emitir palavras de ordem ao final das conferências. Lá fora, as pessoas desanimavam com o discurso político e não queriam, sequer, discutir a Lei da Caducidade, que protege policiais e militares que torturaram presos políticos nos tempos da ditadura militar.

Por que o Uruguai mudou duas vezes a minha vida?

Porque é sempre lá que me vem a chama da determinação, o rumo a seguir, o caminho da compreensão. É de lá que veio, dessa última vez, a opção pela pesquisa-ação, o retorno (ainda tímido) aos movimentos sociais e as pazes com a política - não-partidária e para a vida inteira.

E é por isso que ontem, 25 de outubro, me lembrei tanto de Gonzalo, Martín, José, Carlos, Raquel, dos professores e alunos de Villa García, dos moradores do quilômetro 16, dos pescadores de Punta del Este, do taxista, dos catadores de papel, do senhor engravatado que com ar de ressentimento me disse que o Banco do Brasil "se fué del país", do saxofonista que dormia na praça, dos garçons, daquela moça simpática que nos levou a conhecer o PIN, da senhora que chorava no cinema, da moça que levava um gato na coleira e de vários outros personagens. Em quem eles votaram e de que modo votaram? Fosse eu, votaria em quem? Fossem eles, por aqui, votariam em 2010 em quem? Que clareza temos ao ver a realidade alheia? E com que clareza devemos ver a nossa? De que modo percebemos o mesmo lugar, em tempos diferentes? E de que forma devemos incluir as percepções de hoje em nosso futuro?

Montevidéu, para mim, é sonho que não precisa ser real e cotidiano para fazer sentido. É lugar que devo buscar sempre que (ainda que com recordações) quero compreender o meu próprio território. "Más allá del sur", como dizia o cancioneiro, é a porta que se abre para a América Latina, a minha América Latina.


obs.: COPYLEFT - A foto que antecede o texto é da equipe de comunicação da Universidade da República e foi retirada de www.extension.edu.uy