quinta-feira, 8 de julho de 2010
semicultura
Ringo Star seria Lady Gaga. A voz do "polvo" é a voz de Deus. Seja radialista e sinta-se em um boteco. Não vá pensando que sou fake. Para fazer stand up não precisa ser ator, basta ser engraçado. A diversão é garantida. A reflexão, nem tanto. O factual entra em pauta. O jornalismo está por aí. O telefone também faz piada. "Pilantropia", definiu a Polícia Federal. Música é notícia. Quem se apresenta no Festival de Inverno? Que felicidade! Cristiano Ronaldo pagou US$ 20 milhões para engravidar uma mulher. "Foi a noite mais cara de minha vida", diz o jogador de futebol, "mas valeu a pena". O livro fala sobre a sabedoria das coisas, travando um diálogo entre o abajur e a lâmpada, comenta, do outro lado da linha, o escritor. Por que temos tanta facilidade para nos preencher? Por que temos tanta dificuldade de olhar para dentro?
quarta-feira, 7 de julho de 2010
desanuviando

O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado do sereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo, sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação... Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.
João do Rio, A alma encantadora da rua
terça-feira, 6 de julho de 2010
censura e sufoco
Me sinto, assim, com um travesseiro sobre o rosto e alguma mão bem forte e pesada pressionando-o, cada vez com mais força. A força das palavras cortadas e das versões deturpadas da história. Uma potência de domínio sobre o trabalho. O meu próprio. Força essa violentada. Violência de autoridade, que indica o que deve ou não ser dito, que memória deve ser resgatada e que documento há que se considerar. E o que sufoca mais é que vivemos os tempos de felicidade e liberdade plenas. Aliás, parece que sempre foi assim. O erro está onde querem notá-lo, não? Os incomodados que se retirem, é o que ensinam as entrelinhas em versos populares. E ao se retirar, apague a luz, feche a porta, não deixe rastros.
Não, não há o que reclamar, menina! Esse rosto pressionado é que procura confusão, quer deturpar as linhas retas, tão retas, deveras retas! Conservadorismo, não lhe aguento com essas plumas e essas penas tão fartas, tão delicadas, tão amenas!
Yo no protesto por mi
porque soy muy poca cosa,
reclamo porque a la fosa
van las penas del mendigo.
A Dios pongo por testigo
que no me deje mentir,
no me hace falta salir
un metro fuera 'e la casa
pa' ver lo que aquí nos pasa
y el dolor que es el vivir.
(Violeta Parra)
Não, não há o que reclamar, menina! Esse rosto pressionado é que procura confusão, quer deturpar as linhas retas, tão retas, deveras retas! Conservadorismo, não lhe aguento com essas plumas e essas penas tão fartas, tão delicadas, tão amenas!
Yo no protesto por mi
porque soy muy poca cosa,
reclamo porque a la fosa
van las penas del mendigo.
A Dios pongo por testigo
que no me deje mentir,
no me hace falta salir
un metro fuera 'e la casa
pa' ver lo que aquí nos pasa
y el dolor que es el vivir.
(Violeta Parra)
sábado, 3 de julho de 2010
linguagem vlogueira
Passei uma parte do dia de hoje pensando sobre a escrita enquanto manifestação do pensamento. É a que mais me agrada, talvez porque desde cedo somos estimulados (ou forçados) a gostar de ler e de escrever. Mas, bem ou mal, há muito não é linguagem hegemônica. O que me parece interessante.
Eis que me deparei, então, com esse vídeo, uma série de "aulas populares" dispostas na rede e um grupo grande de gente da minha geração, para mais ou para menos, que aderiu à expressão por meio do audiovisual. Maravilha!
Tudo bem que esses ditos "vlogueiros" não usam todos os recursos que têm. Pelo contrário, falam como se estivessem em sala de aula (e até escrevem no quadro), seguem um raciocínio tão linear que cansa. Contudo, de todo modo, me impressionou bastante a facilidade com que essas pessoas falam em público e diante da câmera. Gostei de ver. Cada um com com sua "desenvoltura". Não perdem o raciocínio, ainda que possam contar com os editores de vídeo.
Desde já, parabéns ao Denis Lee, não concordo com o que ele disse sobre o humor na TV, mas esse é um debate escrito-visionado para outra ocasião.
Eis que me deparei, então, com esse vídeo, uma série de "aulas populares" dispostas na rede e um grupo grande de gente da minha geração, para mais ou para menos, que aderiu à expressão por meio do audiovisual. Maravilha!
Tudo bem que esses ditos "vlogueiros" não usam todos os recursos que têm. Pelo contrário, falam como se estivessem em sala de aula (e até escrevem no quadro), seguem um raciocínio tão linear que cansa. Contudo, de todo modo, me impressionou bastante a facilidade com que essas pessoas falam em público e diante da câmera. Gostei de ver. Cada um com com sua "desenvoltura". Não perdem o raciocínio, ainda que possam contar com os editores de vídeo.
Desde já, parabéns ao Denis Lee, não concordo com o que ele disse sobre o humor na TV, mas esse é um debate escrito-visionado para outra ocasião.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
diga não à maquiagem!
"Não adianta esconder, a gente existe"! Dispensa comentários. Apesar de que é nessas horas que fico louca para dizer o porquê ainda acredito na Comunicação Comunitária. Mas, enfim, não é preciso entrar em detalhes.
Ôpa, espera aí.
Ainda vale ressaltar: quais são os outros muros, além desse indicado pelo vídeo? Será preciso fazer um esforço, na sua localidade, que certamente não é o Rio de Janeiro, para decifrar quais são os muros? Quais são os lixos e qual é a orquestra que nos impedem de perceber a realidade e, mais do que isso, de negá-la?
Quando tudo parece bem, precisamos esfregar os olhos.
nada vai acontecer, não tema!
"Esse é o reino da alegria". Participo de um seminário sobre educação em rede cuja preocupação das pessoas é, grosso modo, criar ferramentas de mediação aprazíveis e eficazes na formação de seus alunos. A discussão tem lá o seu fundamento teórico e uma vasta gama de boas intenções, mas, pouca preocupação política. Um ou outro pesquisador arrisca a pronunciar essa palavra: política. Como se fosse algo descolado da educação! Mas estamos falando de humanidade, ok? E de política enquanto ação.
Os pesquisadores de ambiência virtual ou gameart se empenham para trazer seus olhares "de processo" à educação e estão sempre preocupados em ressaltar "as coisas boas" de seus estudos sobre tecnologia. E é cada experimento tão interessante... Interfaces com o corpo, a terra, o ar, a sombra. Sentidos em três ou quatro dimensões. Real e virtual em uma mesma textura. Maravilhoso! Maravilhados ficamos com as possibilidades técnicas da humanidade. Já pensou ensinar história usando Age of Empires? Não se sabe bem que tipo de conteúdo será repassado, mas se apre(e)nde!
Onde está mesmo a educação? E a política?
A dedicação para romper preconceitos dentro da academia supera o olhar social. A educação, em diálogo franco com as mídias e a criação artística, tenta, mas não consegue o mais básico: contemplar quem sequer tem a possibilidade de estar dentro da estrutura social formadora (de opinião, de afetos, de posturas, de carreiras, de modos de ser e de viver etc.).
Algo me incomoda. Saio da Pontifícia, paro no ponto de ônibus e vejo uma senhora de meia idade, com um saco nas costas, camisa e calça rasgadas, gritando: "55 anos e um aborto. Foi a única coisa que essa vagina pariu". E aí, mais uma vez, me pergunto: para quê?
Os pesquisadores de ambiência virtual ou gameart se empenham para trazer seus olhares "de processo" à educação e estão sempre preocupados em ressaltar "as coisas boas" de seus estudos sobre tecnologia. E é cada experimento tão interessante... Interfaces com o corpo, a terra, o ar, a sombra. Sentidos em três ou quatro dimensões. Real e virtual em uma mesma textura. Maravilhoso! Maravilhados ficamos com as possibilidades técnicas da humanidade. Já pensou ensinar história usando Age of Empires? Não se sabe bem que tipo de conteúdo será repassado, mas se apre(e)nde!
Onde está mesmo a educação? E a política?
A dedicação para romper preconceitos dentro da academia supera o olhar social. A educação, em diálogo franco com as mídias e a criação artística, tenta, mas não consegue o mais básico: contemplar quem sequer tem a possibilidade de estar dentro da estrutura social formadora (de opinião, de afetos, de posturas, de carreiras, de modos de ser e de viver etc.).
Algo me incomoda. Saio da Pontifícia, paro no ponto de ônibus e vejo uma senhora de meia idade, com um saco nas costas, camisa e calça rasgadas, gritando: "55 anos e um aborto. Foi a única coisa que essa vagina pariu". E aí, mais uma vez, me pergunto: para quê?
Assinar:
Postagens (Atom)