
Condenamos e, ao mesmo tempo, nos sentimos tão seduzidos pelo egoísmo. Isso é incrivelmente difícil de ser percebido! Quanto mais tentamos pensar nas pessoas, no bem-estar delas e em dar nosso melhor a elas, mais nos afastamos. Essa será nossa evidente condição (e contradição) humana?
O problema é que esperamos algo em troca. Um reconhecimento, que seja. Nunca abandonamos o ego por completo e o resultado é catastrófico. Às vezes, sem sequer perceber, direcionamos toda nossa energia para o rumo, o sujeito ou o objeto equivocados. Um animal, uma planta, uma causa, um grupo – estamos ávidos pela doação, mas não sabemos de que forma atingir esse objetivo já subjetiva e materialmente determinado. Aliás, isso de que as “coisas” são determinadas ficou para trás.
Estamos ressequidos, por mais que não aceitemos esse fardo. Tentar (eu disse só tentar) praticar algo como o altruísmo parece sufocante aos outros e a nós mesmos. O limite é sempre a “segurança” que exigem as relações. A segurança de saber o que se quer do mundo, de estar nele plenamente, enquanto a vida administrada não permite que, de fato, tenhamos esse “privilégio da experiência”.
O fato é que nos sentimos pouco confortáveis com o envolvimento. Um mundo apenas basta. O mundo previsível, sem percalços, sem crítica e, sobretudo, sem dor.
“Vamos nos permitir”, diz o cancioneiro popular, quando, em verdade, está a convidar a todos a agir de forma espontaneamente programada. Fingir tranquilidade é permitir-se. Ocultar incômodos é permitir-se. Evitar reflexão é permitir-se. E o que mais poderia ser? O otimismo fugaz da vida intensa escamoteia a ordem do dia que é “viver sem frustrações”. Ou, evitar viver para o outro.
Aquele sujeito que lemos tanto recomendou a instabilidade como atitude. Isso queria dizer, quem sabe, reconhecer que somos, de fato, humanos. Foi mal entendido, foi chamado de “pessimista” e até de praticar um providencial e cego “imobilismo”. Ora, esse é apenas um exemplo.
Não admitimos, sequer, que somos impotentes, pois a nossa maior ilusão é a força e o motor da mudança. Adaptamo-nos ao sonho da transformação, ainda que nos custe seguir em formação. Pois formação pressupõe, em todos os âmbitos, dúvida. Mas já não permitimos a dúvida, sob qualquer aspecto e em qualquer situação concreta.
Basta voar, sugere a campanha da felicidade. E assim cumprimos. Logrando, no entanto, apenas um breve vagar.
