domingo, 12 de junho de 2011

das surpresas

Em 2006, pela primeira vez na vida, depois de 2 anos de formada, uma especialização recém-encerrada e muitas ilusões, entrei em uma sala de aula. Virei professora, quase que por acidente. Não sabia o que pensar e sequer como agir. Mas, assumi aquela postura da maioria fraca e inexperiente: tentei ser séria e me sentir superior. Não deu certo, claro. Logo nos primeiros encontros com a turma, vários foram os estudantes que me desmontaram. Entre eles, Cristiane e Amabile. A primeira me levou para o Bar do Laranja. A segunda, tirou alguma onda me chamando de "tia" e ainda gritou: meu nome não tem acento!

A Cris me cativou desde o início, com sua calma e sensibilidade. Muito rapidamente tornou-se a melhor companhia que eu poderia ter naquela cidade de gaúchos expatriados. Dividimos livros, discos, filmes e referências sobre o Pequeno Príncipe. Passeamos por Porto Velho e até pelo Rio de Janeiro! Ela foi embora para Cuiabá um ano depois, salvo engano. Mas, voltou a Vilhena algumas vezes e nunca deixamos de dividir as angústias sobre os namorados malfadados ou os problemas de família. Muitas vezes eu prometi que a visitaria, nunca fui.

Já com a Amabile foi terror à primeira vista. Ela falava alto e sempre soltava alguma frase indevida. Quando não passava vergonha em mim, criava caso com outra pessoa. No início, interpretei suas atitudes como prepotentes. Depois vi que era pura sinceridade. Me equivoquei: aquela falastrona toda não segurava a própria espontaneidade. Menina durona, menina doce. Enfim, menina. Não saiu mais da minha casa e foi a única a levar o projeto da rádio na escola a sério e até o fim. Certa vez, em 2008, na Bolívia, tivemos uma briga tão feia que ela chorou muito, arrumou a mala e simplesmente foi embora. Pedi desculpas de forma descrente. Até hoje ela diz: "você é chata, mas...". Não guarda sequer os próprios segredos. Tem o coração mais apto a perdoar que já conheci.

Vim embora de Rondônia há pouco mais de dois anos. Pensei que nunca mais veria Cris, Amabile ou quem fosse. Muitas vezes supus, aliás, que apesar de ter gostado de muita gente que vive ou viveu naquele estado, seriam todos, sim, ex-colegas, ex-amigos, ex-conhecidos ou ex-qualquer outra coisa. O trauma me impediu de manter vínculos, mas é claro que essa austeridade não durou muito tempo. E se sequer controlei a sala de aula, imagina se iria fazer isso com a vida?!

No início deste ano, combinamos de ir a Cuiabá. O "motivo" era um congresso da Comunicação que teria no mês de junho. Deu certo, apesar de a Cris até o último momento duvidar que eu iria - com toda razão. E quando as reencontrei, naquele pátio da UFMT, esvaziado pela greve, parecia que nunca havíamos deixado uma a rotina da outra. Estávamos Cris e eu, novamente, dividindo as dores; estávamos Amabile e eu, num repente, trocando carinhosas farpas; estávamos as três falando, falando, falando mil coisas ao mesmo tempo. E ouvindo, é claro.

Engraçado como foi notar a cumplicidade. Isso não tiramos da instituição escolar, infelizmente, mas sim da vida. Na hora de partir, deixando minha alma em Cuiabá, foi que senti em dois abraços o sentimento de amizade. Ex-alunas? Não. Sempre foram, sim, amigas. Obrigada, queridas, pelo reencontro!

o que é intelectual?

N'outro dia, apresentei trabalho em um congresso e usei a expressão "intelectuais de um campo". Na hora dos comentários, alguém considerou que eu estava falando de uma "elite" e, pior, que me inseri nesta elite. Isso me incomodou. E pensei se não deveria ter explicado melhor a que me referia.

N'outra ocasião, ao assistir a um debate sobre "pesquisa empírica" estabelecido entre três professores, percebi que o discurso deles caminhava 300 anos atrás e se revestia de "rigor" e "neutralidade". A Comunicação agora está querendo ser "ciência dura"? E para quê? Perguntei aos três se a minha impressão estava "correta". Eles me contaram toda a história do Positivismo, mas em nenhum momento disseram "sim" ou "não".

Pois é.

Diante desses ocorridos, é preciso demarcar que quando leio "intelectual" não entendo "gente que usa o intelecto" (afinal de contas todo ser humano faz isso o tempo todo, em todas as atividades e mediações) e nem entendo "pessoa que integra a comunidade acadêmica e que ensaia pesquisas". Entendo, sim, "criador, organizador e disseminador da cultura", das ideias que formulam visões de mundo, hegemônicas ou não, como definiu Antonio Gramsci. Então quando leio "intelectual" não entendo um ser superior e/ou privilegiado, mas sim um ser social que está rente na "batalha de ideias".

Essa diferença tem de ser destacada pois deve estar claro o posicionamento político desse trabalhador - o "intelectual". Basta de neutralidade!

sábado, 28 de maio de 2011

hoje é dia de poesia: quem levar?

Um pensamento:

Patrícia Galvão, José Paulo Paes, Mário Benedetti, Carlos Drummond de Andrade, Abel Silva. Ela e eles vêm me acompanhando há algum tempo, repetitivamente. Quando tem sarau no Shangri-lá ou quando a "gonorância (im)produções" se encontra num repente, estou lá com os mesmos amigos e os versos de sempre. Passo vergonha, apesar de serem tarimbados. Queria variar!

(...)

Impossível foi esse meu desejo matutino de sábado, quando encontrei um depoimento de Abel Silva dado a Carlos Didier. E me deparei com sua prosa documental...


Tive na faculdade uma colega linda, tremenda morena, mas que era triste. Me lembra Machado: “Se bela, por que triste? Se triste, por que bela?”. Eu achava aquela tristeza um mistério. Eu pensava também em Sartre. Eu vivia com a cabeça cheia de Sartre. E pensava: se “o corpo é o destino”, ela nasceu para a alegria; no entanto, é esta sombra. Então, numa festinha de violão e tal, na casa dela, conheci a mãe da minha colega e vi que era a tristeza em pessoa. Eu pensei: ai de quem tem mãe triste.


... com suas reflexões sobre a poesia...


Existe uma poesia do olho e uma poesia do ouvido. Claro que há diferença entre letra de música e poesia de livro. Quando estou a fim de publicar livro, boto algumas letras. Jura Secreta, por exemplo. Festa do Interior, não. Porque é estritamente para ser ouvida e dançada. Jura Secreta tem versos para serem lidos e ouvidos.


... e o próprio método...


Tem a canção da madrugada, das três horas da manhã. De repente, você acorda e aquela solidão total. Uma sirene toca longe... Há uma lucidez, um perigo às três horas da manhã. Você pode ser surpreendido, de repente, em pleno sono por uma premonição, e isso pode ser um verso, uma canção, e lá vai o sono embora.


... ou sobre a "ideologia do viver"...


A questão não é rir por último
nem muito menos antes:
A questão é rir durante.


... ainda, com a mais conhecida definição de nós mesmos:


Só uma palavra me devora
aquela que o meu coração não diz


Hoje é dia de poesia com Abel Silva, mais uma vez!

sábado, 21 de maio de 2011

percepção em oito tempos

era para o mundo acabar, mas eu estava num palquinho de madeira, debaixo de uma tenda de circo, lá na pracinha da rua mil e treze, no setor pedro ludovico. a meninada da vizinhança acompanhava tudo de perto. repetia a contagem dos passos. seguia as respirações com palmas. a lu falava segurando um megafone, brava, nervosa, como todo diretor cênico parece fazer em dia de ensaio geral. e rodopiávamos de improviso, com medo de cair, pensando sobre como seria no dia da apresentação. algumas pessoas estavam bem mais seguras que outras, é claro. não almocei, pedalei 40 minutos para chegar nesse lugar. tardei horas pensando na flor azul que iria na cabeça. pintei as unhas de vermelho. e todo aquele frio-quente interior de quem faz uma atividade pela primeira vez. algo tão desafiador quanto uma paixão recente. que me faz perceber como é bom ser experimentadora de vida, aprendiz de gente, estudante de movimentos, investigadora de sensações, testadora de corpos. curiosidade que me aplaca, enfim, é por essa tal de "autonomia do sujeito, no mundo e com o mundo". que ora está no livro, ora está na dança; que ora é da concentração individual, ora é da conspiração coletiva; que ora falta em mim, ora vem desde criança. obrigada, lu, por esse despertar!



sexta-feira, 13 de maio de 2011

pedagogia do terror em 22 atos

O manual que segue foi elaborado depois de 26 meses de observação-participante dentro de um programa de pós-graduação em Comunicação. Foi possível realizar um diagnóstico a partir do procedimento da indução. Contribuíram alguns colegas, com seus relatos.


PEDAGOGIA DO TERROR EM 22 ATOS


COMUNICADO: Algo aconteceu naquele reino de quinquilharias que me fez rever o olhar. Portanto, terei de refazer esse texto. Um dia o retomo!

(...)

22. Fique tranquilo, sempre haverá outro colega para lhe defender, lembre-se que sua categoria é a parte forte do esquema 70-15-15 da universidade pública brasileira.

sábado, 23 de abril de 2011

momento


por alguns minutos parei
a única nuvem escura passou.
tive ideias inconclusas.
o tom de azul deixou-me estarrecida,
encantada,
pensando em quê?
(suspiros)
o céu!
puf! - sumiu
piscadela
muito a (se) fazer