quarta-feira, 20 de julho de 2011

Pelo direito de ser grupo, de fazer greve, de ter um posicionamento político e de assumir as próprias contradições

Nota: Escrevi esse texto para ser lido na assembleia da minha categoria, em greve por todo o país desde o dia 6 de junho. No entanto, como essa pronúncia deve passar dos dez minutos, pelo prolongamento do texto, não sei se terei condições de fazê-la. Deste modo, compartilho as ideias que me afligem aqui neste blog.




Gostaria de falar sobre algumas coisas que estão a incomodar.

A primeira delas é com relação ao individualismo que está posto na vida, no trabalho e até mesmo dentro do movimento sindical.

O individualismo radical tem sido a grande marca do século XXI. Desde as primeiras crises do capitalismo monopolista, na década de 1970, uma "nova sociabilidade" vem sendo engendrada entre as pessoas como forma de acompanhar os rearranjos necessários à reconstituição do sistema. Isso não quer dizer que estão a inculcar comportamentos, mas sim que há uma série de falsas consciências sendo organizadas e reelaboradas. Uma delas, e muito forte, é a do individualismo radical, aquele que me faz me sentir super-potente e, ao mesmo tempo, me culpa por tudo o que há de ruim na vida e no mundo.

Juntamente com o individualismo está a "novidade". "O mundo mudou", proclamam os donos do dinheiro há mais de 300 anos! E quanto mais crise econômica se vê pelo mundo, mais o discurso da "novidade", a apropriação da ideia de "revolução", juntamente com a proposta de "ser livre" e "ser indivíduo", são entranhados nas relações sociais. Esta primeira década do século XXI revelou bastante isso: crise, desemprego, miséria, exploração, revoltas populares, por um lado, e "novidade" na cultura, "tecnologia", alto consumo, ilusões, novos corporativismos, tentativa de dizer que as classes sociais se dissolveram, por outro. E onde está o individualismo? Está tangenciando comportamentos, pois cada vez mais somos levados a crer que o futuro depende de nós, que o sucesso depende de nós, que até mesmo a mobilização depende de nós, desde que seja feita por “cada um”; mas não por todos. As causas reais da exploração são camufladas e nós, trabalhadores, passamos a crer, em nossos cotidianos, que, de fato, somos os únicos responsáveis por todas as crises pelas quais passa o mundo.

Quando do início desta greve, ouvi muita gente dizer que “vai da consciência de cada um” aderir à greve. E o que é essa consciência de cada um? A falsa consciência aproxima essa “consciência de cada um” ao livre arbítrio, sem nem mesmo lembrar que essa “consciência de cada um” não brota como magia, mas sim como reflexão em conjunto.

O individualismo também está presente dentro de nosso próprio movimento quando ouvimos que a pessoa que sofre assédio moral é “fraca” por se sentir abalada com isso. Ora, além de cultivar, mais uma vez, a responsabilidade das partes pelo todo, esse discurso impede que enxerguemos e realizemos debates francos sobre o conformismo, sobre o medo, sobre a dominação e sobre o abuso de autoridade. Devemos evitar individualizar questões que são, em verdade, coletivas.

(...)

Também gostaria de pensar sobre o sentido da greve. Por que os trabalhadores realizam greve?

Desde os primeiros pensadores das relações de classe, que são as mesmas relações de produção, a greve é considerada o resultado de uma crise. Crise esta que, por sua vez, deriva da conscientização dos trabalhadores. E como é que nós, trabalhadores, adquirimos consciência? Consciência de quê? "Consciência de classe".

Se voltarmos nos escritos de Marx, perceberemos que a consciência de classe não surge de forma automática e metafísica, mas sim da percepção real por parte trabalhador de sua condição de exploração. Percepção essa, vale lembrar, que não é individual, mas sim coletiva. De tanto negarem a própria vida, com a morte do sentido do trabalho, os trabalhadores passam a reconhecer que seu processo de sobrevivência é resultado de uma luta entre o dono das forças produtivas, o dono do lucro, e eles, que produzem a mercadoria, a riqueza. "Consciência de classe" é consciência do posicionamento de um grupo na luta e classes.

Foi deste modo que a greve, nos primeiros postos de trabalho material do mundo, surgiu: do desespero dos trabalhadores diante de sua condição. E foi justamente quando os trabalhadores, já estranhando sua própria atividade de sobrevivência, perceberam que davam a vida por um lucro que nunca seria seu, que sustentavam um padrão de vida que nunca seria o seu e que sua única "propriedade", a mercadoria, tampouco seria reconhecida como resultado de seu esforço.

E hoje, o que mudou? Muitos ideólogos importantes reproduzem o discurso de que "não existem mais classes sociais", pois temos, sobretudo nas sociedades em desenvolvimento, um forte poder de consumo espalhado por bairros, faixas etárias, profissões e grupos. Pois essa é parte das ideologias contemporâneas. E é, ao mesmo tempo, o clássico modo do capitalista de dispersar o trabalhador.

Cabe aos donos do dinheiro manter algumas estruturas como: a burocracia, ou o Estado, a força coercitiva, ou as polícias, e as fábricas de ideologias, de falsas consciências, como as escolas, as universidades, as igrejas e as mídias. E tudo isso para quê? Para impedir a revolta de quem trabalha, para impedir a "consciência de classe", crítica e coletiva de quem sustenta o mundo, de fato. Pois é justamente essa revolta, esse reconhecimento de crise por parte dos trabalhadores, essa "negação da negação", que pode abalar o sistema produtivo.

Greve é para isso: para abalar o sistema, para sacudir a todos que convivem e coexistem com a injustiça, para fazer com que nossa "consciência de classe" seja pensada, repensada e reafirmada todos os dias. Para que nós façamos autocrítica e identifiquemos, em nosso próprio modo de levar a vida, o individualismo e as contradições que nos corroem.

E quanto a nós, trabalhadores da educação superior no Brasil, que não produzimos diretamente os bens primários ou secundários, por que realizamos greve? Que tipo de crise avistamos para sustentar uma greve?

Posso enumerar algumas. Talvez, esqueça de muitas:

1. Temos os mais baixos salários do funcionalismo público brasileiro; nosso piso sequer alcança a faixa de três salários mínimos. Ainda assim, boa parte da sociedade não considera nosso direito de reconhecer a crise, ou seja, nosso direito de reivindicar uma greve. Há quem diga por aí que nossa greve é "meramente política", pois eu rebateria esse boato lembrando novamente de Marx, que diz que "o poder material dominante em uma sociedade é também o poder espiritual dominante". Ou seja, das ideias dominantes. Quem tenta difamar o trabalhador e sua greve está vendo o mundo com os olhos do capital. E se nós, trabalhadores, não demonstrarmos que acreditamos em nossa greve, também estaremos reconhecendo nossa submissão à lógica de nossos patrões.

2. Lembro ainda que, desde o dia 31 de dezembro de 2010, quando a MP 520 foi editada, no último dia do governo Lula, passamos por novas ameaças de privatização dos serviços hospitalares nas unidades médicas universitárias. A MP 520 foi negada em votação no Senado, mas retomou ao cenário do Legislativo em forma de Projeto de Lei. Isso quer dizer que, para o atual governo, a única solução para o funcionamento dos HUs é a criação de uma empresa de direito privado que irá gerenciar o dinheiro público para contratar, como celetistas, os profissionais que atenderão a população. Ora, que tipo de segurança e de respaldo esse trabalhador da saúde precário terá? Por que um governo dito de esquerda quer enxugar a máquina pública e reduzir custos com contratação de pessoal? Esse não seria um posicionamento liberal?

3. Também vale recordar que, apesar dos últimos concursos, a projeção de novos estudantes que entraram nas universidades é inversamente proporcional à quantidade de servidores, tanto técnico-administrativos quanto docentes, que tomaram posse. Ou seja, não têm sido suficientes as projeções do Reuni, o programa de expansão e reestruturação das universidades brasileiras. Estamos sobrecarregados em nossas unidades, em todas as áreas ou funções. Trabalhar oito horas por dia, muitas vezes, é pouco. Tanto, que muitas unidades recorrem às gratificações e aos “projetos de extensão” para remunerar o funcionário público que faz hora extra (e que não deveria estar fazendo hora extra). Que tipo de crise está instaurada nesse processo estafante? O que será que não estamos conseguindo enxergar?

4. Não produzimos mercadoria, mas somos suporte para a formação de milhares de profissionais em todo o país. Profissionais esses que, apesar de estudarem em um sistema público, são orientados, na maioria das vezes, para conduzirem somente seus lucros e suas vidas privadas. E naturalizam a ideia de que não devem se envolver com questões coletivas, naturalizam a ideia de que não devem provocar danos ao sistema, naturalizam a ideia de que não podem questionar, falar, lutar contra o que os oprime. A contradição é que muitos se formam e não encontram emprego. E sequer conseguem entender o porquê disso. Pois, não usaram a universidade como espaço para pensar sobre isso. Estamos colaborando para formar profissionais tal qual querem as “agências de elite”: que não se sentem trabalhadores e, portanto, que reproduzirão as ideias dominantes dos proprietários de bens materiais e simbólicos. Claro que não somos os únicos responsáveis por isso (não quero aqui cair na “idola do tempo e do grupo” de que somos únicos e super-potentes), mas devemos debater esse tópico. O individualismo e a alienação do sentido da educação estão impregnados na universidade pública brasileira e uma greve é um bom motivo e uma boa ocasião para a reflexão sobre nossa própria responsabilidade, juntamente com as outras categorias.

(...)

Nossa greve é por salário, é pela dignidade no trabalho, é pelo reconhecimento da importância do técnico-administrativo, é por respeito, pela realização de mais concursos públicos e pela própria educação. Portanto, nossa greve é legítima e é política. Mas é legítima e política no sentido de que reconhecemos a crise e queremos soluções reais. Caso contrário, paramos. E paramos para lembrar aos donos do dinheiro que nem sempre e nem por tudo estamos dispostos a colaborar com o sistema.

Nossa greve, além de política, é econômica, social e simbólica. É uma greve consciente e não “partidária”, como estão a dizer. Sabemos muito bem da orientação ético-política-moral de todos os partidos brasileiros envolvidos com o movimento sindical. E sabemos também em quem votar. No entanto, não precisamos desse ou daquele grupo político, que por completa falta de autocrítica, considera-se “vanguarda” e guia das mentes proletárias. Não precisamos de “vanguarda”. Temos opinião própria, apesar de que sabemos que não vamos longe sem o coletivo. Não precisamos pertencer a feudos por vezes viciados para saber que o motivo da greve é legítimo, é um grito por libertação!

Não quero aqui desmerecer os meus colegas filiados aos partidos. Pelo contrário, quero agradecer-lhes pelo apoio, pela sinceridade em assumirem seus postos na luta de classes, pela experiência que têm de conviver com a coletividade e pelos ensinamentos da tradição. Só não posso aceitar a boataria que corre, e que até já foi reverberada em assembleia, de que há esse ou aquele partido político querendo derrubar o governo e usando a greve para isso. Não sou tão facilmente manipulável como pensam. E sei que nós trabalhadores, no plural, não somos facilmente manipuláveis. Acreditamos no coletivo, mas não queremos ver nossa "consciência de classe" subestimada.

(...)

Gostaria de finalizar denunciando a situação interna na qual nos encontramos nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), de cerceamento e restrição não somente do direito de greve, mas do direito à expressão, do direito à crítica e à manifestação de nossas opiniões. Já fui ameaçada e marcada dentro da universidade por mais de uma vez (e em mais de uma universidade), pura e simplesmente por falar o que penso. E também sei de muitos colegas que da mesma forma estão sendo azucrinados, velada ou abertamente, por outros colegas e por outras categorias que porventura se crêem “patroas”, donas da força de trabalho dos técnicos.

Faço um convite ao coletivo: vamos relatar abusos, vamos ter coragem de denunciar! Não é abaixando a cabeça para mentalidades escusas e autoritárias que seremos respeitados nas universidades e em todo o universo acadêmico. Sejamos francos, responsáveis, mas também sejamos fortes. Vamos realizar um longo debate sobre assédio moral e nos resguardar como seres humanos! Não vamos aderir à opressão! Como diria Paulo Freire, o oprimido, quando adere à opressão, não se reconhece mais, está imerso na realidade opressora. Vamos tentar, então, em nossos cotidianos, localizar quem nos oprime e a quem oprimimos, para que sejamos dignos de nossa história e de nossas lutas!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

situação



Um bilhete com ponto e vírgula. Tinha "pés de galinha" nos olhos. A fumaça inebriava. Escreveu em prosa verbos raros. Um terceiro gargalhou. Poderia ter sido somente uma conversa cheia de amenidades. Era, em verdade, um motim. A energia da terra, toda em uma situação qualquer de calor. Tempo em que ninguém se convencia. E nem mais um ser sequer amava outra condição que não fosse a de servidão. Situação anunciada em muitos livros anteriores. Vagamente, estranhamente: karma. Do futuro, somente o escuro. Pormenores a dizer. Do kòsmos ao pé do ouvido.

terça-feira, 21 de junho de 2011

registro de caminhada

Repórter é etnógrafo sem método (estou com mania de dizer), e, por isso, pseudo-etnógrafo. Não tem cuidado com as anotações, não dá ordens ao seu pensamento, não realiza levantamento bibliográfico antes de ir a campo e sequer repete as mesmas etapas de “investigação” quando se envolve em/com um tema. Por tudo isso, quando um jornalista adentra o universo científico, sente-se vulnerável. Aquela segurança do texto pré-formatado e dos acontecimentos rotineiros dá lugar aos questionamentos feitos por outrem, bem como dos conceitos cuidadosamente desenvolvidos mediante muita leitura e observação. Como tratar de especificidades estudadas ao longo de uma vida em poucos meses? Repórter, então, tem de ir buscando seus métodos, ainda que lhe custe sua cara espontaneidade dialógica, ainda que não saiba por onde começar.

Para realizar excursão – incursão – imersão ao mundo rural, recebi a ajuda organizada do professor Gabriel, que enviou-me textos e fez um “panorama” do que eu poderia encontrar nos locais por onde passaríamos Carlos, o fotógrafo, e eu. Recebi indicações prévias sobre o contexto de Itapuranga e Varjão, sobre as pessoas que me acompanhariam e seus contatos. Assumi a tarefa inicial de familiarizar-me ao trabalho e às pessoas nele envolvidas – e não foram poucas.

Tive dúvidas sobre a ordem das leituras. Para a ciência, o “levantamento bibliográfico” é costumeiramente o primeiro passo, embora a Antropologia discuta esta ordem. Resolvi seguir Cremilda Medina, uma professora que me acompanhou durante muito tempo nas aulas de técnica de reportagem. Assim, li nada antes. Foi pior para Ricardo, Marco, Juliana e Shara, meus interlocutores diretos, que tiveram de me explicar minuciosamente cada um dos termos que usavam. No entanto, melhor para meu espírito aventureiro, que se encantou com as conversas travadas e as palavras pronunciadas pelas pessoas que conheci da forma como se apresentavam, à primeira vista, sem muito crivo ou olhar crítico. Não cheguei a esvaziar-me, pois isto é impossível para todo ser humano, porém, me abri para receber o mundo novo. E o recebi com o prazer do requeijão com doce de limão e da salada de frutas frescas retiradas do pé.

Usei três meios físicos de anotação diferentes. Um para as indicações iniciais do professor Gabriel e também para as discussões do seminário sobre “o mundo da agricultura familiar em Goiás”; outro para as viagens e as conversas em campo; mais um terceiro para as ideias esparsas que poderiam surgir na mente. Isso não foi intencional. Quando vi, já tinha estabelecido essa ordem. Aconteceu, contudo, que o primeiro e o terceiro, algumas vezes, foram trocados. O que me deu certo trabalho na hora de transcrevê-los (e compreender o que estava escrito).

Em alguns momentos vi nexos entre este trabalho e outro que eu estava fazendo com a professora Maria Clorinda, da Escola de Veterinária, coordenadora do projeto de implantação e manutenção do gado curraleiro junto ao povo Calunga. Isso foi trabalhoso de desvincular. Tudo era campo, tudo era forma de sobreviver, tudo era busca por autonomia na produção. E agora? Para completar, anotei tudo nos mesmos cadernos. Outra dificuldade.

Depois das viagens, passei a ler os textos e a maturá-los. Além dos recomendados pelo professor Gabriel, busquei ler também o que havia narrado o primeiro integrante do projeto de Itapuranga: professor Joel. Encontrei duas produções dele nos arquivos da própria UFG. Um que explicava sobre a Agroecologia, este campo multidisciplinar, e outro que tratava da fruticultura em Itapuranga.

No meio do caminho, encontrei Marcelo Mendonça, professor do curso de Geografia do campus de Catalão, com seu conceito de “povo cerradeiro” e seu relato de experiência também com a Agroecologia e com a troca de sementes crioulas. Em linhas muito gerais, vi o “povo cerradeiro”, esse grupo de pessoas que resiste à própria expropriação e “re-existe” no mundo rural (por meio da associação em movimentos), tanto nas pequenas propriedades de Itapuranga como no assentamento Palmares, em Varjão. Mais uma vez, temi misturar os assuntos. Até que um dia entrevistei Marcelo, na Escola de Agronomia. Um alívio foi quando ele próprio autorizou-me a fazer articulação entre os estudos e os projetos. Notei, aliás, que ele talvez não quisesse ser mencionado pela seção “cultura”, sim pela seção “produção”.

Até o dia do seminário sobre “o mundo da agricultura familiar em Goiás”, rascunhei textos, mas não os encaminhei para a revisão – como havia prometido para tanta gente, inclusive a própria revisora. Depois de assistir a um dia de debates na EA e gravar quase todas as falas, voltei para casa, cansada, cheia de dúvidas.

Como resumir? – essa era a dúvida principal.

A essa altura, já estava encurralada pela editora da Revista UFG Afirmativa, que previa pouco mais de 20 dias para o fechamento do material e conhece bem o meu tempo demorado de produção e maturação dos textos. Fiz, então, um resumo de todas as reportagens que estava fazendo ao mesmo tempo. Era uma forma de dizer como eu estava produzindo. Fiquei um pouco preocupada, pois minhas andanças pela UFG, em um mês, me renderam sete abordagens diferentes para o grande e generalista assunto do Cerrado. Além da produção de alimentos, ainda havia de me preocupar com as festas populares, as identidades do povo goiano, os calunga, os avá-canoeiro, a congada, as descrições da literatura local, o sudoeste goiano etc.

Transcrevi fitas, reli textos de Gabriel, Marcelo, respectivos orientandos, e de Joel. Li outros novos, como de Paulo Freire (este antigo companheiro de dissertação), Jacques Chonchol (apresentado por Paulo Freire), Zander Navarro (encontrei no Scielo), José de Souza Martins (um senhor que me desperta muita admiração e que tive a honra de entrevistar em 2010), Antônio Teixeira Neto (localizado no Observatório Geográfico de Goiás), Eguimar Felício etc. Também, acessei o site do Movimento Camponês Popular (MCP), indicação de um dos entrevistados, e tive acesso a outros tantos documentos e estatísticas referentes ao agronegócio. Algo assim que, para aproveitar, tive de buscar na própria fonte como o Sindicato das Indústrias de Agrotóxico (Sindag), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Agência Nacional de Saúde (Anvisa). E mais uma vez passei a remoer.

Quando falo remoer, me refiro à ação de, todos os dias, dormir e acordar pensando em determinado tema: Como fazer? O que escrever? Como começar? Como não ser leviana? Como ser o mais fiel possível àquele universo que não é meu? Remoí por mais de 15 dias e ainda estou a fazê-lo, ainda que meu prazo esteja mais do que vencido. Graças à greve da minha categoria ganhei uma prorrogação no tempo. Penso, contudo, que esta não deve tardar.

Foi, então, que comecei a escrever a reportagem de várias formas. Pensei em frases, descrições de ambientes, partes extraídas dos textos, associações de ideias, conceitos, contextos históricos e políticos, até poemas. Encontrei um comentário do professor Joel que passou a ser uma das chaves fundamentais: “As experiências humanas não podem ser desperdiçadas”. Passei a pensar no campo como este lugar do trajeto, do reconhecimento e do recomeço. Eternamente. “Entranhamente”.

Ainda não pude dar fim a esse processo produtivo, muito embora possa sentir que isso está mais perto do que esteve ontem. Ainda não sei onde vou parar, sendo sincera. Mas, queria registrar a forma como venho produzindo, pois tenho descoberto que o caminho, de fato, não é resultado, não é fórmula com lead e sublead pronta na mente, mas sim a marca da própria caminhada. Como diria o poeta, “se faz ao andar”. Mais do que isso, preciso lembrar o meu próprio caminho, para que depois possa sentir os pingos de suor desta labuta-reportagem-ciência que está cada dia mais complexa, pois mais instigante.

sábado, 18 de junho de 2011

los perros


Conversa interessante é sobre cachorros. Seus pelos sempre são macios e seu olhar desenvolve no outro, quase que automaticamente, meiguice e confiança. Eles são seres superiores, estão sempre dispostos a perdoar. Isso é amor de verdade. Na escala evolutiva das almas, sobrepõem-se até à vaca. Mas, há experiências que nem Skinner gostaria de ter feito. Algo mais do que jogar a bola azul na grama verde. E então esses seres superiores tornam-se também raivosos. Há casos. Podem, ainda, nascer fluorescentes, como o Super Homem, cheios de traumas e produtos tóxicos correndo junto ao sangue. Dependentes de tecnologia. De modo que, por favor, não deixe um animal como o cão nas mãos dos humanos! Isso pode ser fatal à doçura do bicho. Perros, pelas ruas, pelos becos, deitados aos pés das pessoas, desapercebidos, vão melhor. Quando respeitados, independem até da carne de lata. Seu cheiro é de vida. Rolam na terra quando voltam do pet shop. São, sim, superiores!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

pensamento

Caderno azul para as ideias referentes aos estudos. Bloquinho branco com amarelo para as ideias referentes ao trabalho. Mas, o trabalho está parado. Mas, os estudos também. Mas, o trabalho e o estudo somam-se quando uso instrumentos da reportagem na dissertação e vice-versa. Autores que se complementam, muito embora já me alertaram para a diferença das linguagens. Mas, estudo e trabalho são tão penosos e tão prazerosos. Mas, campo e cidade têm, da mesma forma, a mesma conexão. E se não fosse eu uma pseudo-etnógrafa sem método? Ou, melhor dizendo, e se não fosse eu repórter? Teria necessidade de dois cadernos para abrir e fechar em tempos diferentes? Por que, cada vez mais, quero fazer ciência-reportagem e monografia-superfície? Uma confusão de pensamento que quando é fé tem um projeto de pesquisa semi-estruturado em pura ansiedade. E uma notícia pelas metades. E vários relatos de experiência sem transcrição. Do que desistirei primeiro: do singular ou do particular? E agora, "meudeus", é greve!

domingo, 12 de junho de 2011

das surpresas

Em 2006, pela primeira vez na vida, depois de 2 anos de formada, uma especialização recém-encerrada e muitas ilusões, entrei em uma sala de aula. Virei professora, quase que por acidente. Não sabia o que pensar e sequer como agir. Mas, assumi aquela postura da maioria fraca e inexperiente: tentei ser séria e me sentir superior. Não deu certo, claro. Logo nos primeiros encontros com a turma, vários foram os estudantes que me desmontaram. Entre eles, Cristiane e Amabile. A primeira me levou para o Bar do Laranja. A segunda, tirou alguma onda me chamando de "tia" e ainda gritou: meu nome não tem acento!

A Cris me cativou desde o início, com sua calma e sensibilidade. Muito rapidamente tornou-se a melhor companhia que eu poderia ter naquela cidade de gaúchos expatriados. Dividimos livros, discos, filmes e referências sobre o Pequeno Príncipe. Passeamos por Porto Velho e até pelo Rio de Janeiro! Ela foi embora para Cuiabá um ano depois, salvo engano. Mas, voltou a Vilhena algumas vezes e nunca deixamos de dividir as angústias sobre os namorados malfadados ou os problemas de família. Muitas vezes eu prometi que a visitaria, nunca fui.

Já com a Amabile foi terror à primeira vista. Ela falava alto e sempre soltava alguma frase indevida. Quando não passava vergonha em mim, criava caso com outra pessoa. No início, interpretei suas atitudes como prepotentes. Depois vi que era pura sinceridade. Me equivoquei: aquela falastrona toda não segurava a própria espontaneidade. Menina durona, menina doce. Enfim, menina. Não saiu mais da minha casa e foi a única a levar o projeto da rádio na escola a sério e até o fim. Certa vez, em 2008, na Bolívia, tivemos uma briga tão feia que ela chorou muito, arrumou a mala e simplesmente foi embora. Pedi desculpas de forma descrente. Até hoje ela diz: "você é chata, mas...". Não guarda sequer os próprios segredos. Tem o coração mais apto a perdoar que já conheci.

Vim embora de Rondônia há pouco mais de dois anos. Pensei que nunca mais veria Cris, Amabile ou quem fosse. Muitas vezes supus, aliás, que apesar de ter gostado de muita gente que vive ou viveu naquele estado, seriam todos, sim, ex-colegas, ex-amigos, ex-conhecidos ou ex-qualquer outra coisa. O trauma me impediu de manter vínculos, mas é claro que essa austeridade não durou muito tempo. E se sequer controlei a sala de aula, imagina se iria fazer isso com a vida?!

No início deste ano, combinamos de ir a Cuiabá. O "motivo" era um congresso da Comunicação que teria no mês de junho. Deu certo, apesar de a Cris até o último momento duvidar que eu iria - com toda razão. E quando as reencontrei, naquele pátio da UFMT, esvaziado pela greve, parecia que nunca havíamos deixado uma a rotina da outra. Estávamos Cris e eu, novamente, dividindo as dores; estávamos Amabile e eu, num repente, trocando carinhosas farpas; estávamos as três falando, falando, falando mil coisas ao mesmo tempo. E ouvindo, é claro.

Engraçado como foi notar a cumplicidade. Isso não tiramos da instituição escolar, infelizmente, mas sim da vida. Na hora de partir, deixando minha alma em Cuiabá, foi que senti em dois abraços o sentimento de amizade. Ex-alunas? Não. Sempre foram, sim, amigas. Obrigada, queridas, pelo reencontro!

o que é intelectual?

N'outro dia, apresentei trabalho em um congresso e usei a expressão "intelectuais de um campo". Na hora dos comentários, alguém considerou que eu estava falando de uma "elite" e, pior, que me inseri nesta elite. Isso me incomodou. E pensei se não deveria ter explicado melhor a que me referia.

N'outra ocasião, ao assistir a um debate sobre "pesquisa empírica" estabelecido entre três professores, percebi que o discurso deles caminhava 300 anos atrás e se revestia de "rigor" e "neutralidade". A Comunicação agora está querendo ser "ciência dura"? E para quê? Perguntei aos três se a minha impressão estava "correta". Eles me contaram toda a história do Positivismo, mas em nenhum momento disseram "sim" ou "não".

Pois é.

Diante desses ocorridos, é preciso demarcar que quando leio "intelectual" não entendo "gente que usa o intelecto" (afinal de contas todo ser humano faz isso o tempo todo, em todas as atividades e mediações) e nem entendo "pessoa que integra a comunidade acadêmica e que ensaia pesquisas". Entendo, sim, "criador, organizador e disseminador da cultura", das ideias que formulam visões de mundo, hegemônicas ou não, como definiu Antonio Gramsci. Então quando leio "intelectual" não entendo um ser superior e/ou privilegiado, mas sim um ser social que está rente na "batalha de ideias".

Essa diferença tem de ser destacada pois deve estar claro o posicionamento político desse trabalhador - o "intelectual". Basta de neutralidade!