domingo, 6 de maio de 2012

Movimentos circulares indicam: poema concreto



Imagem retirada de Facada Leite-Moça


Um quadro na exposição
é óleo sobre tela
guache com cartão
madeira esculpida
linha e tecido

Faz círculos em torno
do corpo das pessoas
que, à sua frente, se deparam
com o esquecimento da razão

Esse não é um poema concreto
!?!?!!!!
Apenas celebração...

Caetano interpreta onomatopéias
das quais
não dispensamos um só som

O tato é inevitável
A dança diante da instalação azul
T a m
b
   é
     m

A cor
de poeira envolve
ffffffffffffffffffffffffffff
meus olhos
diante dos desenhos de Oiticica,
quando imagino uma produção
cinematográfica
que nunca existiu.
Um sopro

Narrar é difícil

Difícil.

Mas todos podemos saltar
da janela ou por um buraco sem fim
Entrar em quartos escuros
que à meia luz nos apresentam
um grande mapa
Astral
Da vida

Movimentos circulares
doce coreografia
se vislumbra
Apaga-se a luz!

quinta-feira, 22 de março de 2012

constipação e revertério

Parei de escrever. A mente está em branco, mas o corpo, o coração, os olhos e todas as impressões que se manifestam pelo suor das mãos estão sob forte turbulência, em franca movimentação de sinais. Parece-me que toda a poesia sumiu, a vontade, a inspiração da vida, todo aquele engajamento pessoal para decodificar o mundo seguem sonolentos, padecendo de constipação intestinal. Restou apenas o revertério. Às pedras que saem aos poucos das cloacas, um consolo ou um afago não são o bastante. É algo além, de decisão, profundo, que poderá resultar em crescimento. Ou ainda mais tonteira, tontería, dor de cabeça, barulho nos tímpanos. Quanto tempo! O que se espera agora é mariposa.

sábado, 24 de dezembro de 2011

pressa de viver

Nosso humor muda, nossas histórias mudam, a vontade de contá-las varia bastante, as experiências, as emoções, as frustrações, o peso, o corpo, o olhar, a leitura, a crítica, as opiniões, a vontade de dormir e outros desejos mais mudam. E esse blog não consegue acompanhar.

Assim, quiçá, seja melhor!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

saudade

Venho pensando sobre saudade. Sobre como isso é um estado de espírito e ao mesmo tempo um sentimento prolongado que se desdobra em outros tantos. Aperta o peito, mas quando há consciência de que o motivo da saudade jamais voltará, logo nos conformamos e substituímos o incômodo por boas lembranças. Aperta o peito, mas se é óbvio que o motivo da saudade chegará em breve, a aflição torna-se esperança. Nos dois casos, saudade deixa uma coceira que nem a pomada indicada pelo dermatologista cura.

Minha mãe me presenteou com um vestido de flor. Senti saudade de quando era criança e brincava com suas roupas de adulta. Senti saudade também do meu avô, pois por coincidência e no mesmo dia passei por uma rua do Centro e o cheiro era de jasmim. Esse mesmo cheiro é também da adolescência no interior, mas dessa sinto saudade apenas quando quero fugir da rotina do trabalho. Exemplo um. As recordações me confortam e me fazem raciocinar de que avô não volta, infância não volta, juventude de ninguém volta, mas tudo isso é amor onde quer que esteja.

Passei quatro dias dando comida a um gato cujo dono viajou. Sentia o cheiro desse dono por toda a casa, era uma tortura. Exemplo dois. Eu queria que esse dono estivesse ali, mas era somente o gato. O gato é um fofo, mas o cheiro trazia saudade, então tudo tornara-se um prazer estranho e com leves pontadas. Eis que em pouco tempo o dono voltou, eu sabia, com um livro do Jorge Amado e muitos beijos de areia.

Esses casos é que me fizeram pensar sobre "saudade, palavra triste".

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

arréte là, menino

Num repente despertou-se confusa, inebriada pela paz acometida durante a noite, sozinha, avistando somente um rosto desconhecido. Conhecido e desconhecido. Ora um ora outro. Alguém que não conversava, não andava, apenas fitava-a com firmeza. Es decir, algum som de sua boca saía, mas não lhe era acessível. Rosto esse que não era de convivência, mas sim de deleite. Sensação de conforto logo deu espaço à solidão e ao vazio de nada esperar. “Arréte là, menina!”. Menino. Pois, “cada pétala de flor abre no seu tempo...”. Calma. Tudo parecia resumir-se de forma linear: viver em pensamento. Apenas em mente. Isso lhe trazia a calma tão desejada. Mas não era o fim. Não seria assim. No mesmo repente, esse rosto muito prontamente bateu-lhe à porta, pedindo um cigarro e fazendo-lhe convites. Irrecusável convite à ação. Que pena!



domingo, 30 de outubro de 2011

rio de janeiro, junho de 2010

Encontrei um papel rabiscado, dobrado, no vão das folhas de um caderno que estava prestes a ser enviado para o serviço de reciclagem. Abri. E me deparei com impressões sobre uma localidade que muito me traz boas recordações. Achei por bem registrar.


Sobre vozes e lugares

Alimento ideias sobre onde estou. E tenho lembranças que me remetem a contos, personagens, canções, filmes. Há muito estou na Central do Brasil, ainda que tenha fincado os pés neste espaço somente agora. E o que é a Central quando a noto por meus sentidos, sem representações?

O lugar sem paradas. Não há cadeiras para um breve descanso. Pelo alto falante, a locutora da rádio informa o próximo embarque. A mãe ensina os filhos a vender goiabada por um real. Um real também vale um chocolate, uma lâmina de barbear, um café. O trabalho das pessoas.

Duas jovens levam um senhor, cego, ao serviço de informações. A moça do balcão recebe quem chega. O vaivém é grande. Os sujeitos estão certos de onde vão. O som alto da Central não me deixa ouvir nitidamente as conversas recorrentes, mas todos têm o que dizer.

Caminho. Vou seguindo rumo ao centro comercial da cidade.

Minutos depois, estou na Uruguaiana e, em seguida, na esquina do Saara. As cornetas anunciam o evento de amanhã: o primeiro jogo da copa do mundo. A indicação dos ambulantes é que todos se preparem, com camisas e firulas. Outra rádio informa as horas, uma e vinte da tarde, e também as promoções. Por aqui, onde estará a voz das pessoas?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

egocentricoinstrospeccionsimo

pintas, pelos, rugas, marcas e mãos. veias, sangue, saliva e cabelo. olhos, brilho, óleos e covas. ossos, rótulas, dedos e pés. bacia, cóxi, ombros e seios. virilha, músculos, tendão e tensão. tensão pré-menstrual. tensão pré-decisão. tensão pré-pós-revolução-que-nunca-chega. lágrimas, lágrimas, lágrimas e riso. calos nos pés. calos nas mãos. calos na região lombar. calos. calor. coração. oração. sentidos apurados da carne, da alma. pensamentos alheios. quero agora um gozo, uma experiência. as pessoas, tão belas. nada mais nada mais nada, além disso. disso e ponto. uma fase para além da abstração física do corpo e da concretude psíquica e muito obscura da inconsciência. alma ânima anima animada. animosidade extrema e excelente momento egocêntrico de percepção. de nada. introspecção. interiorização. introjetado introspeccionismo egocêntrico. de "la" nada.