sábado, 27 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

contra a assepsia

Prólogo

Logo depois do resultado das eleições presidenciais, uma chuva de comentários preconceituosos, tortuosos, limitados, violentos, xenófobos e algo mais emporcalhou a rede, atribuindo a "culpa" da vitória da candidata do Partido dos Trabalhadores aos "pobres" do Norte e do Nordeste. Pude acompanhar, com vergonha e revolta, algumas dessas opiniões no Twitter e no Facebook. E resolvi me manifestar.

Ainda que eu tenha defendido o voto nulo durante todo o processo de pleito, por considerar que esse sistema de representação não é tão democrático como supomos, sei que esse resultado é legítimo e também é o "menos pior" que poderíamos ter. Se foram os estados das regiões Norte e o Nordeste que elegeram Dilma (sabemos que não foram apenas, mas...), o fizeram muito bem; com consciência de classe. Parabéns ao povo brasileiro!


Contra a assepsia da opinião

A burguesia pensa que foi bem formada só porque estudou em colégio pago e fala 3 idiomas. Mas é justamente aí que está o engano: falta autocrítica, falta olhar para a história, falta compaixão. Isso ninguém ensinou!

Insinue que um burguês é "ignorante" e veja a selvageria se revelar! A pseudocultura foi dura com ele, pois o fez comprar livros e perder o estímulo à própria leitura; o fez reunir bens simbólicos, como mercadorias, e também sucumbir ao próprio fetiche de tentar parecer um fatídico e já morto aristocrata. Muita lástima para uma alma degradada e copiosa que investiu tanto, mas que, contraditoriamente, pouco "acumulou".

No Brasil, a elite do Centro-Sul nega o Nordeste, nega o Norte, nega que os pobres possam ser lúcidos ao fazer suas escolhas e conduz a cultura popular ao status de exótica e desfrutável. Quando, em verdade, está a negar sua própria brasilidade, sua própria história de migrante, a dor da origem colonial, a violência do parto bandeirante e, no presente, sua própria impotência ao escolher.

Além de estar perdendo a hegemonia (assim, pelo menos, eu espero), a burguesia do Centro-Sul também está a revelar a dupla-face de sua boa educação: fascista, ignorante, violenta, individualista e totalitária. Diz que não é partidária, ignora a militância, faz questão de expor seus desejos de paz e assepsia, mas também mostra toda a consciência de classe que nunca teve: a consciência dos que defendem a riqueza - e para poucos!

Mas, não vamos estimular ainda mais a violência. "Vamos pedir piedade..." e perdoar essa gente que não sabe o que diz, pois se fez surda, cega e sem sensibilidade. Vamos, sim, seguir na luta, simbólica e cultural, por uma educação verdadeiramente popular! E a história se encarrega do restante.

sábado, 9 de outubro de 2010

secura

A racionalidade me secou. Sem entusiasmos, sequer sei ligar o gravador. Travei na entrevista. Diante de um senhor que diziam ser o “mito” da Filosofia da História, sucumbi. E não tive ganas de vencer as mãos suadas e nem a mania de pequeneza. Não logrei ser intrépida repórter. A escolha dos 17 anos me traiu. Não existe mais, em verdade. Não consigo fazer perguntas vazias, nem preenchidas. Nem profundas, nem rasas. Tanto faz. Sem poupar o figurão, somente para ter uma página no jornal? Não. Mas essa não era a questão. A questão é que eu tive medo e pouca força para vencer o medo. E só.

Sequei também com os amigos. Não suporto mais nem os modernos e nem os pós-modernos. Tudo muito pesado. Não consigo falar só de marido e nem só de espiritualidade. Nem só de política e nem só de universidade. Discussões políticas, aliás, partem frequentemente para a ignorância. Problemas dos outros até que escuto, mas logo me lembro da terapeuta e aí... começo a “psicologizar” a conversa. O que não é agradável. Mais uma vez, com uma racionalidade seca, dura, pendente de sentimentos. Sentimentos que tento segurar, pela primeira vez na vida.

Hoje olhei para o rosto da minha mãe, ela está envelhecendo. Essa é minha grande preocupação do momento. E também tento conversar com meu pai algo além de Dilma versus Serra – afinal, essa é uma efeméride. Queria falar também das minhas angústias, mas não dá muito certo. Falta tolerância de alguma parte. Suspeito que seja a minha. Comigo mesma.

E tem mais coisa que dói (e aí, a essa altura, confundi a secura com a dor; ainda que venha tentando manter a apatia). Dói o coração, o peito, os cabelos, o pescoço, os olhos. Cortei o cabelo para ver se me animo. Talvez adiante. Ele não está aqui. E talvez nunca tenha estado. E o que fizemos para mudar? Padecemos. A distância insistiu por secar a orquídea, tão difícil de sobreviver. Mas, vai ver que nada disso importa, de fato. Estou seca. E a razão me consome. E é isso aí.