sábado, 11 de dezembro de 2010

fiquei preocupada

Ouvi de um estudante de Jornalismo que "a Filosofia está superada". Ele diz não gostar de teoria, ainda que tenha começado a vida acadêmica nas Ciências Sociais. Perguntei se esse era um pensamento comum entre os sociólogos - pois supus que ele poderia estar, grosso modo, repetindo uma certa rivalidade entre departamentos. Ele disse que não, que sequer interessou-se pela primeira graduação. Aliás, não chegou a terminá-la. Não aguentou Caio Prado, Florestan, Ianni e FHC. Era muita teoria da dependência pra seu ímpeto de soberania.

O tom de sábia pseudocrítica prosseguiu:

"Mas vocês lá no NUCCA estão lendo McLuhann? Tão ultrapassado quanto a teoria matemática!".

Sim, estamos. Ler não é acender velas. Núcleo de Criação de Conteúdos Audiovisuais fez um compromisso de abandonar o preconceito. Ler de tudo. Ler todos. Tirar ideias de onde elas foram formadas.

"Não me digam que vão ler Kant também?"

Se for o caso... Por que não?

Então o diálogo não teve continuidade. As minhas frases eram longas demais para a impaciência do garoto, que me interrompia a cada três segundos. Há muito deixei de me interessar pelas pessoas que sabem de cor o sobrenome de meia dúzia de grandes autores e isso lhes basta para viver. Mas, confesso que fiquei bastante intrigada com a plena síndrome de Deus do rapaz.

Como é que todo tipo de texto deixou de fazer sentido a ele? Quem lhe contou que a "Flosofia está superada"? Se a aversão a todo e qualquer legado da produção de conhecimento é completa, qual é a "fonte" que lhe forma a visão de mundo? Faz parte do ethos da profissão de jornalista tamanhos esvaziamento e arrogância? Quantos livros ele leu na vida para ter coragem de dizer isso? A satisfação consigo mesmo lhe custa o quê? Esse tipo de comportamento que nega os passos do próprio ser humano em seu longo caminhar compreensivo é uma marca dos tempos que mudam?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

la razón


Consciência
*

A consciência é onipresente
às vezes a sinto no peito
mas também está nas mãos
na garganta e nas pupilas
nos joelhos e nos pulmões
mas a consciência mais consciência
é a que se instala no cérebro
e ali ordena proíbe festeja
e até recorre interminavelmente
aos arquipélagos da alma

a consciência é incômoda
impalpável invisível mas incômoda
usa a censura e as bofetadas
as penitências e o sossego
as recompensas e os paradoxos
os gestos luminosos e libertários
mas a consciência mais consciência
é a que nos aperta o coração
e vaga pelos canais do sangue

Mario Benedetti


*O poema “Conciencia” foi retirado e traduzido livremente de “El mundo que respiro” (Buenos Aires: Seix Barral, 2000). Traduzi Mario, que traduziu meu racio-namento.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"não mais existe..."

O fato de a grande maioria da população aceitar e ser levada a aceitar essa sociedade não a torna menos irracional e menos repreensível
(Herbert Marcuse, 1964)







Abstrair esse fato equivale, na prática, a negar a existência histórica das classes sociais e da própria luta de classes - o que já é por si só o mais claro indício de como interesses e posições de classe podem coagir, ideologicamente, as formas da consciência...
(Rodrigo Dantas, 2008)




Foto: Urbano Erbiste, repórter fotográfico.
Retirada sem permissão do site: http://urbanoerbiste.blogspot.com/ Copyleft!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

surdomudez (mudando de prosa)

O que seria de nós, que endossamos a pouco criativa "opinião publicada", sem os fatos agendados, o espetáculo e a matança para comentar?

Referendamos a nossa própria "pseudoatividade" nos espaços da rede – que “devem ser” para o debate livre, desde que não haja debate, de fato.

?

estar no mundo, uma resposta

Sempre que eu assumo, “estou em crise”, vem me consolar alguma pessoa muito preocupada e carinhosa. Que bom, querem meu bem, certo?! Pois então lhes digo, sob pena de parecer ingrata ou orgulhosa: não é o caso de necessitar consolo - uma vez que o consolo é penoso e paliativo enquanto a crise é permanente e, quiçá, libertadora.

A crise é estar no mundo, simplesmente.

E digo mais, sob pena de parecer arrogante: por trás do consolo bem intencionado, pode estar camuflado um temperamento totalitário, daqueles que sequer aceita os próprios dramas (quanto mais o dos outros).

Me perdoem!

Se o ser humano não se dá ao luxo de viver uma crise, parabéns, alcançou a “maturidade”! Sorri e segue em frente. Talvez um dia eu consiga. No entanto, se não se vive a divisão do “parto” (o professor Joel Ulhôa me ensinou que krísis, do grego, também quer dizer “parto”), não renasce mais, não se revê. Está certo (a) de tudo. Deixou de compreender os inconformados; tem pena dos que se sensibilizam. Esse ser, não aceitando estar à deriva, protegeu-se forçosamente dentro do grande peixe, como um Jonas bíblico.

Também lamento, mas não consolo.

sábado, 27 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

contra a assepsia

Prólogo

Logo depois do resultado das eleições presidenciais, uma chuva de comentários preconceituosos, tortuosos, limitados, violentos, xenófobos e algo mais emporcalhou a rede, atribuindo a "culpa" da vitória da candidata do Partido dos Trabalhadores aos "pobres" do Norte e do Nordeste. Pude acompanhar, com vergonha e revolta, algumas dessas opiniões no Twitter e no Facebook. E resolvi me manifestar.

Ainda que eu tenha defendido o voto nulo durante todo o processo de pleito, por considerar que esse sistema de representação não é tão democrático como supomos, sei que esse resultado é legítimo e também é o "menos pior" que poderíamos ter. Se foram os estados das regiões Norte e o Nordeste que elegeram Dilma (sabemos que não foram apenas, mas...), o fizeram muito bem; com consciência de classe. Parabéns ao povo brasileiro!


Contra a assepsia da opinião

A burguesia pensa que foi bem formada só porque estudou em colégio pago e fala 3 idiomas. Mas é justamente aí que está o engano: falta autocrítica, falta olhar para a história, falta compaixão. Isso ninguém ensinou!

Insinue que um burguês é "ignorante" e veja a selvageria se revelar! A pseudocultura foi dura com ele, pois o fez comprar livros e perder o estímulo à própria leitura; o fez reunir bens simbólicos, como mercadorias, e também sucumbir ao próprio fetiche de tentar parecer um fatídico e já morto aristocrata. Muita lástima para uma alma degradada e copiosa que investiu tanto, mas que, contraditoriamente, pouco "acumulou".

No Brasil, a elite do Centro-Sul nega o Nordeste, nega o Norte, nega que os pobres possam ser lúcidos ao fazer suas escolhas e conduz a cultura popular ao status de exótica e desfrutável. Quando, em verdade, está a negar sua própria brasilidade, sua própria história de migrante, a dor da origem colonial, a violência do parto bandeirante e, no presente, sua própria impotência ao escolher.

Além de estar perdendo a hegemonia (assim, pelo menos, eu espero), a burguesia do Centro-Sul também está a revelar a dupla-face de sua boa educação: fascista, ignorante, violenta, individualista e totalitária. Diz que não é partidária, ignora a militância, faz questão de expor seus desejos de paz e assepsia, mas também mostra toda a consciência de classe que nunca teve: a consciência dos que defendem a riqueza - e para poucos!

Mas, não vamos estimular ainda mais a violência. "Vamos pedir piedade..." e perdoar essa gente que não sabe o que diz, pois se fez surda, cega e sem sensibilidade. Vamos, sim, seguir na luta, simbólica e cultural, por uma educação verdadeiramente popular! E a história se encarrega do restante.